Tudo começa com o fato do Metallica ser o headliner do Lollapalooza Brasil.

Tal como manda a tradição em minha vida com relação a eles, eu não tinha ingresso até os momentos finais da espera do show. Exceto por 1999 que eu comprei antecipadamente, toda vez eu vou parar no show deles em cima da hora. E todo show do Metallica tem algo para contar e lógico que esse não seria diferente só por ser em um festival né?

Dessa vez em cima da hora eu acabei indo, e poderia levar alguém comigo. Decidir quem convidar demorou cerca de dois segundos pois confesso que já tinha alguém em mente quando soube da possibilidade de ir ao show. E então, combinado tudo começa a saga, afinal o festival pode ser conhecido também como Lollapralonge dada a distância e trabalho de se chegar lá.

Saio de casa no sábado. Vamos anotar que era 13h20 e entender que o trajeto seria a minha rua, por três quarteirões, uma outra por 3 longos quarteirões e então um corredor de ônibus até o metrô. O que acontece nessa segunda rua? Eu também gostaria de saber pois havia um trânsito estúpido nela num sábado a tarde. 50 minutos até a estação da Vila Prudente. Quanto tempo levo até lá se for a pé? Os mesmos 50 minutos.

Algumas estações depois e com um código de desconto de Cabify, que faria a corrida sair por volta de R$25, eu e minha convidada tentamos sair do Ipiranga para o festival, mas onde estão os carros? Indisponíveis obviamente, afinal todo usuário do aplicativo deveria estar em um dos veículos tentando chegar no local. E num raciocínio um pouco mais óbvio arriscamos ir até o Paraíso pois ali chove carros de aplicativo né? Errado novamente, 15 minutos de espera e nada de Cabify. Então, vou de Uber, cê sabe… que vai dar algum rolo. Porque o motorista consegue passar reto, dar sabe-se lá quantas voltas no quarteirão, não ligar para perguntar onde estávamos e não conseguir parar onde estávamos a ponto de ter que chamar um outro.

15h39 conseguimos um Uber. Com um delicioso ar condicionado e o Luciano Huck na televisão. O que seria razoavelmente rápido se torna um trajeto de 1h10 onde presencio, além do trânsito, uma multidão religiosa porque lógico que o Waze traçou uma rota perto do Santuário do Padre Marcelo Rossi. Descemos do carro na Avenida Interlagos e subimos a pé até a entrada. Era mais ágil e o motorista acho que não tava muito feliz.

Lógico que antes disso queria entender a lógica que leva uma namorada a participar de um quadro de um programa de televisão onde ela passa um minuto fazendo perguntas pro namorado pelo celular, para o apresentador coxinha ao invés de anunciar que a moça havia ganho o prêmio, fazer aquela velha e ridícula piada babaca de fingir que a garota em questão estava no bar bebendo com alguém e insinuando uma traição. Porque deve ser muito legal arriscar um namoro por R$500 talvez. Tanta gente joga relacionamentos fora por muito menos como insegurança (e depois não superam fazendo papelões por ai) que talvez esse valor seja até bom. Vai saber.

Quase 500 palavras e ainda nem entrei no festival. E apesar de não parecer, estava me divertindo.

lollapalooza entrada 2017

Entrar no local deveria ser uma tarefa fácil, afinal o ingresso/pulseira utiliza um sistema que basta encostar e conferir após a revista rápida e lá está você dentro do Autódromo. Tudo muito lindo se o sistema funcionasse no portão e não tivesse travado a fila por uns 15 minutos juntando uma boa quantidade de pessoas numa fila. Mas tudo bem, conseguimos entrar e qual o primeiro plano ao fazer isso? Cerveja. Muito bem, vamos ao líquido… que não tinha no bar do Palco Axe. A outra opção era uma Skol Beats, o que um digníssimo fotógrafo chamou de “chorume de Chernobyl” algo capaz de dar mais sede do que matá-la. 17h45 e finalmente consigo comprar um fluído que com certeza alterou meu DNA. Contanto que eu não brilhe no escuro, tá tudo bem.

18h35 teríamos finalmente o Rancid no país. Mas eu jurava que o show era 18h30, o que me causou cinco minutos de ansiedade. E então uma hora cravada de um puta show sensacional de 20 músicas atrás uma da outra. De “Radio” até “Ruby Soho” foram poucas as vezes que vi um show tão empolgante em tão pouco tempo.

E isso porque nem sou um fanático por Rancid. Sou apenas um apreciador de bons shows e esse foi sensacional demais. E veja que o Rancid é aquela banda que mesmo se tentasse soar ruim seria boa. Lars Frederiksen me lembrou a versão crescida do personagem daquele jogo “Bully”. E o Tim Armstrong algo como o Dr. Robotinik do punk. Sensacional. A memória visual que eu tinha deles era diferente e o tempo passa não é? 25 anos foi tempo demais de espera pelo Rancid, que foi compensada a cada acorde espancado na guitarra ali naquele palco da cerveja que só desce redonda no slogan. Seria legal num lugar menor e mais tempo? Claro que sim. Foi fodido mesmo assim? Foi.

E vamos a saga da cerveja parte 2, afinal já passavam das 19h40 e ainda não tinha tomado uma “cerveja”. A pergunta é: de quem foi a brilhante ideia de vender chopp num festival onde a demanda seria gigantesca? Certamente de alguém que nunca foi num show ou numa cervejada na vida. Latas seriam muito mais ágeis de encher os copos e diminuiria consideravelmente o tempo de espera, fazendo com que as pessoas pedissem menos copos por vez o que aumentaria a rotatividade no caixa agilizando a fila de mais de 40 minutos pra conseguir algo. E iríamos consumir mais, certo? Cerveja mais fácil = gente bebendo mais = mais dinheiro arrecadado.

Deixando isso pra lá finalmente chega o momento do show da melhor banda de metal de todos os tempos. Meu quarto show deles (isso merece um post estatístico como sempre faço com bandas que vi mais de três vezes) desde 1999, só não vi mais porque tenho uma preguiça monstruosa de ir pro Rio ver naquele festival lá. 2001 já foi uma experiência suficiente naquela cidade.

Eu tava lá de boa, bem, até surgir nos falantes os primeiros acordes iniciais de “The Ecstasy of Gold” e ai dane-se tudo. Quando a banda é a sua favorita você sabe as letras, os licks, os riffs e os solos e canta tudo e na falta disso ainda soca uma bateria (manca, afinal é o Lars né?) no ar. E se empolga, demais. Só evitei as rodas porque me aposentei delas em 2011 ao sair de uma com o tornozelo quebrado e meus pinos sempre lembram que existem.

Na verdade os pinos estavam me lembrando que existiam desde a hora que entrei ali mas não há dor no mundo que me tiraria daquele show. Ainda mais que os safados tocaram “The Unforgiven”. A primeira música que ouvi deles, que me fez curtir a banda, que importante pra mim de tal forma que até meu emprego atual arrumei indiretamente por causa dela. Juro. Eu até achei o texto que escrevi na redação da entrevista esses dias.

Essas músicas novas do Metallica funcionam deliciosamente bem ao vivo com o restante do setlist. (“Halo on Fire <3”) Sabemos, claro, que Lars e Kirk tem altas limitações técnicas e que o James leva essa banda meio que nas costas e que ele vai se tornar aquele vôzão roqueiro que todos queríamos ter. Isso não tira em nada o brilho do show. Nem mesmo as pausas um pouquinho mais longas em trocas de instrumentos ou os solos, todos claramente planejados para poupar o James que quase enfarta meio mundo de preocupação naquele dia que a voz dele foi pro saco algumas semanas atrás.

Senti falta dos fogos na “One”, mas aqueles lasers ficaram sensacionais (mas ai se um pega no sensor da sua câmera, dá um estraaaaago). E invejei de leve o cara que vi conseguindo um setlist do roadie no final do show que terminou com “Enter Sandman” pra castigar o resto da minha garganta.

E ainda tinha crédito pra cerveja na minha pulseira. Pelo menos no final deu para conseguir mais dois copos um pouco mais facilmente. E entre quase possibilidade de lounge e afins, nada como sair praticamente correndo para pegar o último trem na estação a 01h00. Porém não é desesperador correr até lá e sim o fato que não tinha bateria nenhuma no meu celular, nem na bateria externa desde o vídeo ali de cima.

Mas só fui chegar mesmo em casa as 03h30, depois de um lanche esperto no Prime Dog de madrugada, carona até o Ipiranga de novo e graças a uma ajuda a qual agradeço muito, um Uber pra casa no qual eu sequer imaginava que no dia seguinte iria parar novamente no Lollapalooza e que, lógico, não seria uma ida e volta sem algo de anormal acontecendo.